segunda-feira, 21 de abril de 2014

(Entrevista) Lamúria Abissal

"Todo fanático é um quadrúpede, não importa o que ele defenda."



Por que lamuria abissal?
Somos o lamento daqueles que nunca viram a luz.
Da vida, ou qualquer que seja.

Como a banda surgiu?

Somos amigos de infância, um dia mandei um depoimento meu pra ele, gravado, pois Pale é muito recluso, éramos amigos e aquele era um desabafo meu pois eu iria me matar. Ele colocou um fundo musical e essa é a intro de nossa demo, escrota e gravada com microfone zoado de pc, nem mixamos o vocal. Achamos o resultado interessante e resolvemos que faríamos o projeto, 10 minutos depois já tínhamos nos encontrado para gravar a segunda música, "Nostalgia Justaposta em Suicídio", um fato interessante é que todas as 3 letras das músicas da demo eram basicamente um poema só meu. Foi parte desse meu acesso suicida, escrevi muito mal pelo meu estado, mas não mudei nada. Acho que deixa o sentimento mais verdadeiro, pois eu sinto que foram sentimentos toscos.(causas infantis), não me orgulho disso, mas eu era novo ...e burro.

O que vocês acham da cena brasileira do DSBM?


Abandonada, quase quimérica. Brasil nunca focou tanto dsbm, post-bm ou algo mais atmosférico, apesar de projetos como Thy Light, Last Days, Begotten/begotten in pain, Celestial Oblivion, Deprephobia e Endless Solitude que canalizam bem essa essência negligenciada. A verdade é que não é de nossa cultura devido a uma questão cultural em geral, nosso país está mais a espreita de pensamentos religiosos e conservadores do que existencialistas e negativistas. Enquanto existem pencas de bandas de raw bm, symphonic e tudo mais tradicional, é difícil ver uma banda "ousando" numa temática mais emotiva. Eu gosto de afirmar que o Brasil é um dos poucos lugares do mundo onde você pode ter uma banda sem temática, literalmente, algumas bandas são tão genéricas e fechadas em suas influências que chegam a ser mecânicas. Eu acho que a cena BR em geral tinha que pensar mais em se renovar e agregar elementos, uma boa ramificação do black metal com outros estilos geralmente fica excelente, por exemplo.(bandas como Alcest, Penseés Nocturnes, Bosse-de-Nage, Deafheaven não podem deixar de serem citadas, Black/Death como Azarath, Behemoth e Infernal War também) É um erro grosseiro pensar que conservar e segregar o "verdadeiro" black metal do resto é uma forma de perpetuar, isso só limita a música a certos parâmetros e ignoram toda a complexidade de um processo de composição, isso é empobrecedor a qualquer cenário musical. A quantidade de bandas não influencia tanto se todas tem a mesma proposta, fechada e monótona. É preciso agregar para crescer e evoluir e eu não falo isso como um abandono do black metal, o black metal jamais morrerá. Meu apelo é para a questão da personalidade das bandas, quer fazer algo verdadeiro? Tenha uma proposta verdadeira, busque fontes, referências, leia coisas sobre sua abordagem até porque ir na wikipedia e olhar a "biografia" de Lavey é muito fácil. As pessoas precisam de mais para serem impactadas, elas precisam de algo para estabelecer feedback, algo que vá no interior delas e faça uma espécie de elo entre você e ela. As músicas que nos marcam são as que nos identificam, são nossos hinos e filosofias de vida, são músicas que nos tocam e tem identidade. Esse é justamente meu ponto, tenham identidade.

Qual o objetivo do que vocês fazem?


Arrastar o máximo de pessoas conosco, para nosso "além abismo". Temos profundo desprezo pela humanidade, sem restrições, pois em nossa racionalidade de nada diferimos dos animais. A inveja, a futilidade, a competição remetem não a essência humana, mas sim a parte da comodidade creditada a ela. Pessoas nutrem pensamentos de ódio de forma vazia, não concebem conceitos cármicos de imparcialidade e isso faz delas tolas, é triste. Nosso objetivo real é literalmente convencer a desistência da vida, marcar as pessoas por seus piores momentos, estar presentes nelas no que as mata, que são elas mesmas. Creio que, "recrudescer a autodepreciação" definiria.

O que vocês acham do Black metal em geral?

Acho que é uma das melhores coisas existentes nesse mundo, por ser decadente. Temos certa paixão por tudo que é funesto, mórbido. Eu em especial amo autores como Lovecraft, Poe e Stephen King, de fato foi até mesmo no black metal que conheci esses autores e outros de meus favoritos. Bandas como o próprio Cradle Of Filth tem uma temática literária absurda, até poetas ingleses como Byron e Blake eu conheci através do black metal. Eu sempre fui atrás de letras, significados, o que representa, e quanto mais eu mergulhava no black metal, mais eu amava. Eu sinto falta dessa atmosfera completa na cena nacional, pelo problema que já citei da falta de identidade de muitas bandas, mas de qualquer forma é sempre sublime. O Black Metal é antes de tudo o que fazem dele, não mais e nem menos, tudo que as pessoas quiserem dele é o que vai se tornar e por isso muitas vezes pode sim ser ruim ou até péssimo. Essencialmente pela perspectiva de ser algo contra os estigmas cristãos, acredito que também deveria ir contra ele filosoficamente. É engraçado ver o que acontece com o black metal no Brasil, pois as pessoas não conseguem separar sua criação conservadora do que o black metal é, é meio engraçado. Já vi muitos posts de condenação a homossexualidade, a bandas "core", defendendo o black metal com uma argumentação de força e opressão, segregação, como se isso não fosse propriamente um comportamento retrógrado e cristão. O mais engraçado é que o homem ou a mulher sendo gays vão contra a própria criação "divina", o que seria algo muito mais black metal que a própria heterossexualidade, mas outra ironia é que eu vi muitos posts contra o Hoest e Niklas Kvarforth, mas nenhuma contra a banda Akercocke, que tem lésbicas em basicamente todos os clipes. Mais discurso coxinha, conservador e cristão querendo ser incorporado ao black metal. É divertido. Quanto a questão da "guerra contra o cristianismo", eu só faço uma pequena analogia; O cristianismo é um ideal, ideais são baseados na própria concepção individual de cada um, a história do cristianismo é óbvia, qualquer um que fez o segundo grau sabe que não cheira bem, por mais conservador que possa ter sido o professor, isso é matéria obrigatória em qualquer colégio. Ideais são idéias, idéias são combatidas com idéias, a força só resulta na resposta do lado oprimido, que depois só leva a confronto e não hegemonia. Quem acha que o black metal se resume a Noruega entre 89 e 96, tudo bem, volta no tempo e dá um jeito de nascer morando lá, do contrário é óbvio que o black metal vai além. Quem necessita tanto de ficar brincando de Varg e Euronymous é porque ou não tem mais pra fazer, ou não tem mais nada no que se basear. E isso é verdade, conheço muita gente que ouve muita banda pelo status da banda, por ser algo desconhecido e sujo, não por realmente levar a qualquer forma de identificação. Uma guerra baseada numa maioria oprimindo uma minoria, não é uma guerra contra o cristianismo, é uma guerra que sempre existiu e que o cristianismo fez parte dela. Adotar esse comportamento opressor não é nada além de se igualar a quem você dita ser inferior, pois você tem exatamente o mesmo pensamento, só defende outra causa. Black metal não é religião, dogma algum pode se aplicar a uma forma de expressão da alma, que é a música além de rótulos. Quem prioriza mais pose e elitismos infantis que música nunca será um artista de verdade, nem sequer irá compreender o que pode ser isso.

Vocês apoiam a cena nacional?

Com toda certeza, independente de qualquer coisa a nossa cena tem e sempre terá bandas com verdadeira identidade. O metal nacional não para de crescer, isso é ótimo. Novas bandas, novas propostas, novas influências, mais música. Lamentamos quanto ao comportamento de algumas pessoas na cena, mas estando em um pais religioso e proselitismo como o nosso já é de se esperar que sempre haja alguém com complexo de messias em toda parte, pregando a salvação da cena por coisas que nada tem a ver com reais ideologias ou música. Todo fanático é um quadrúpede, não importa o que ele defenda.

https://www.facebook.com/lamuriadsbm?fref=photo

Entrevista feita por: Void




9 comentários:

  1. Muito boa a observação dele, quanto a questão de falta de originalidade, isto é um fato, continuar refazendo algo que já está ai a alguns anos, com o intuito de perpetuá-lo, só ira "forçar" aquilo, tirando o interesse de muitos, uma evolução musical não significa destruição, ou perca do real sentido do Black Metal e seus derivados.

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  2. Para mim, Lamuria é mas uma banda cristã tentando passar por depressiva, palavras bonitas nao servem para torna-los o que não podem ser.

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  3. Lamúria Abissal é uma das piores "bandas" de DSBM que já ouvi. Tentam escrever bonito como os Lusitanos Inverno Eterno ou Defuntos e falham. A sonoridade, nem se fala, não dá pra ouvir mais de uma música sem ficar de saco cheio. Não sei como ainda há gente pra dar ibope pra essa bandinha.

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  4. Então façam melhor que os caras e mostrem pra nós!

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  5. banda com temas muito inteligentes, com criticas bem profundas a essência humana. talvez profundas de mais pra quem apenas critica tudo aquilo q vai contra o alienativo

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Não remova teu comentario,li em meu email e sua visão sobre a banda é ótima no sentido ideológico.

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